quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Memórias do Futuro - cenários futuros e semiótica da cultura

As organizações tanto sociais como privadas, não tem se preparado ao longo do tempo, para os acontecimentos que permeiam os ambientes, nos quais, elas se encontram.
Na vida, a única constante é a mudança, presente na história das pessoas, das organizações e da própria sociedade. Até então nenhuma novidade, que o tempo passa em um processo contínuo e irreversíveis todos sabem, mas a pergunta que surge é; como estar preparado para as mudanças presentes no individuo e nos ambientes que o cercam?
Em seu livro “A empresa viva” o autor Arie de Geus argumenta a respeito da “memória do futuro”, termo criado pelo neurobiologista David Ingvar para denominar os lapsos que o cérebro humano desenha como ações alternativas para possíveis futuros. A todo instante o ser humano cria situações em sua mente que antecipam o futuro. Por exemplo, se uma pessoa vai fazer compras e decidi ir de ônibus, em sua mente ela imagina a hipótese desse ônibus quebrar e pegar um taxi, ou pegar um ônibus que faça outro itinerário, ou ligar para alguém que possa busca – lá, ou desistir e voltar para casa, enfim existe uma série de saídas que podem ser imaginadas. Essas alternativas são “memórias” criadas para um futuro que não existe e pode não vir a acontecer, mas que caso ocorra, já possui uma solução desenhada.
No mundo das organizações, a criação de “memórias do futuro” – fenômeno criado pelo cérebro humano a todo instante- não é algo comum, sendo assim, muitas empresas e instituições sofrem graves perdas com as mudanças macroambientais. A ferramenta que constrói memórias do futuro organizacionais e cria saídas para problemas que no presente são inimagináveis chama-se planejamento por cenários prospectivos.
A teoria prospectiva argumenta que o futuro sempre está por ser realizado, conforme a visão de quem o desenha. A construção de cenários prospectivos não pode ser confundida com projeções que tomam como base fatos passados e, em cima desses fatos projetam o futuro. Os cenários prospectivos são como “roteiros” que ilustram uma história futura. Segundo Antônio Aulicino os “... cenários prospectivos dependem das visões e expectativas dos executivos e especialistas. Há a necessidade de possuir técnicas e métodos definidos, evitando o famoso acho técnico...” (AULICINO,2002)
O processo de criação dos cenários prospectivos não é puramente intuitivo, ainda que a intuição seja usada em determinados momentos, existem técnicas e métodos que buscam dar solidez aos roteiros que visam antecipar o futuro.
Na construção de cenários, ao longo das últimas décadas, destacam-se as metodologias de duas correntes distintas; a anglo-saxônica (Shell) e a francesa.
A corrente anglo-saxônica tem como principais autores Kees Van der Heijden, Peter Schwartz, Ged Davis e o criador do método, Pierre Wack. Essa “escola” criada na década de 1970 na Shell por Pierre Wack, tem como objetivo a criação de enredos futuros.
“Analogias e metáforas estão sempre presentes nas denominações dos cenários. Na maioria das vezes, eles se apresentam como frases de efeito como: as corredeiras (WACK,1985); TINA – there is not alternative (CORNELIUS,2005) dentre outros. Sobre isto SCHOEMAKER (1995) ressalta que “ um cenário é uma estória; capturando sua essência em um título, você cria um enredo fácil para seguir e se lembra” (SCHOEMAKER apud LOURENÇO, 2007, p.46)
Outra “escola” que também se destacou foi à francesa que possui como principal expoente Michael Godet, que baseia-se nos fundamentos de Gastón Berger, para compor o seu método prospectivo. Segundo Lourenço Júnior, essa teoria é “... predominantemente baseada em métodos quantitativos, está abordagem se popularizou na França por oferecer uma “caixa de ferramentas”, principalmente estatísticas e informatizadas, para o desenvolvimento de cenários”. (LOURENÇO, 2007, p.60)
Apesar de ambas as escolas (anglo-saxônica e francesa) apresentarem metodologias distintas, em comum, acreditam em um fundamento básico da prospectiva – o futuro é múltiplo e incerto. Desta forma, segundo AULICINO (2002) os autores das duas escolas definem cenários como:
“O conjunto formado pela descrição, de forma coerente, de uma situação futura e do encaminhamento dos acontecimentos que permitem passar da situação de origem à situação futura.” GODET (1997)
Para SCHWARTZ (1996), cenários são uma ferramenta para ordenar a percepção sobre ambientes alternativos futuros, nos quais as decisões pessoais podem ser cumpridas. Ou um conjunto de métodos organizados para sonharmos sobre o futuro de maneira eficiente. De forma resumida, o autor define cenários como “histórias de futuro”, que podem nos ajudar a reconhecer e nos adaptarmos aos aspectos de mudança do ambiente presente.
Para HEIJDEN (1992), os cenários são ferramentas que têm por objetivo melhorar o processo decisório, com base no estudo de possíveis ambientes futuros. Não devem ser tratados como previsões capazes de influenciar o futuro, nem como histórias de ficção cientifica montadas somente para estimular a imaginação.
Mas, o que planejamento por cenários tem a ver com semiótica? A teoria semiótica, assim como o planejamento por cenários, possui diferentes correntes. Entre as principais teorias semióticas destacam-se; a peirciana, desenvolvida por Charles S. Peirce, que tem como base a fenômelogia; a discursiva, de origem francesa e oriunda do curso de lingüística desenvolvido por Ferdinand Saussure; e a da cultura que possui bases mais antropológicas, desenvolvida na extinta União Soviética em grande parte por Iuri Lotman.
Na presente pesquisa, serão utilizados os instrumentais teóricos da semiótica da cultura. A escolha desta teoria deve-se ao fato dela ser uma semiótica de caráter sistêmico, que busca investigar as relações entre os diferentes sistemas que compõem uma determinada cultura. Para uma maior compreensão dos conceitos presentes na semiótica de origem russa, serão expostas algumas idéias e opiniões baseadas no livro “Escola de Semiótica” da autora Irene Machado.
No livro a autora Irene Machado faz um panorama à respeito da semiótica da cultura, corrente teórica desenvolvida na Universidade de Tartu-Moscou durante os seminários de verão que ocorriam na década de 1960.
Como grande figura a autora destaca Iuri Lotman, semioticista que aprofundou-se nos estudos relativos aos textos culturais. Em seu livro, Machado aborda conceitos importantes da teoria russa, tais como sistemas, textos, códigos, linguagem, estrutura, fronteira, modelização, semiosfera, entre outros instrumentais.
Para a semiótica da cultura o teatro, o cinema, a pintura, a dança e todas as manifestações culturais são linguagens. Como linguagem entende-se uma estrutura que organiza de forma particular os elementos nela dispostos, que são chamados de códigos. Essas linguagens são consideradas sistemas secundários, uma vez que são considerados sistemas de primeiro grau apenas a língua natural, pois, a mesma é dotada de estruturalidade própria.
Segundo Irene Machado:
“Sob a denominação “sistemas modelizantes secundários” consideram-se aqueles sistemas semióticos com a ajuda dos quais são construídos modelos do mundo ou de seus fragmentos. Esses sistemas são secundários em relação à língua natural primária, sobre a qual eles são construídos, diretamente (sistemas supra-linguístico da literatura) ou na qualidade de formas a elas paralelas (música e pintura)”. (MACHADO,2003,p.125)
A modelização vem a ser o elemento que emprega dinâmica a semiótica sistêmica, “...não existe definição semiótica da cultura fora da esfera  do funcionamento que garanta a passagem de um sistema a outro.”(MACHADO,2003,p.31)
A semiótica da cultura surge como uma teoria que estuda as relações entre os diferentes sistemas, as formas como se afetam mutuamente e os diálogos que estabelecem entre si. Apesar de cada sistema codificar de maneira única seus elementos, esse fenômeno não acontece de forma independente da relação de um determinado sistema com os outros.
Todos os acontecimentos semióticos acontecem dentro de um “espaço” chamado de semiosfera, no qual os sistemas sígnicos coexistem e co-evoluem, produzindo a semiose na cultura. Na semiosfera, natureza e cultura vivem uma relação de complementaridade.
Segundo Irene Machado:
“...a semiosfera é o espaço semiótico necessário para a existência e funcionamento da linguagem e da cultura com sua biodiversidade de códigos. Fora desse espaço, não há comunicação, não há linguagem e é impossível a existência da própria semiose...o conceito de semiosfera gravita entre dois campos teóricos precisos: a teoria do dialogismo  de Mikhail Bakhtin, que pensou diálogo da mente com o mundo e a estrutura semiótica da consciência responsiva; e a teoria da biosfera ecológica do biólogo e filósofo da ciência V.I. Vernádski (1863-1945), que estudou o relacionamento de estruturas  binárias, assimétricas, mas ao mesmo tempo unitárias.”(MACHADO, 2003, p.164)
Assim, sendo a construção de cenários poderia utilizar-se do conceito de semiosfera, uma vez que na sociedade os chamados macro-ambientes (econômico, tecnológico, ambiental, social e político) relacionam-se e interferem uns nos outros. Cada um desses macro-ambientes são sistemas complexos que dialogam entre si e não podem ser analisados ou desenhados de forma isolada.

Um comentário:

  1. É um prazer observar como as conexões nos levam a aprender, perguntar, criar. Abraço

    ResponderExcluir